Duas latinas concorrem em seção paralela no Festival de Veneza
A mexicana Nathalia Acevedo e a argentina María Aparicio são duas das cineastas latino-americanas presentes no Festival de Veneza, em uma edição com poucas diretoras na disputa pelo Leão de Ouro.
Ambas concorrem na seção paralela Giornate degli Autori, que coloca o foco nos novos talentos. Dos 11 filmes exibidos nesta categoria, quatro são dirigidos por mulheres, cinco por homens e dois têm codireção mista.
Esta quase paridade está muito distante da situação na competição principal, que concentra todos os holofotes durante o festival.
Dos 21 filmes em disputa, apenas dois são feitos por mulheres: o drama histórico "Woman unknown", da dinamarquesa May el-Toukhy, e o documentário "NAZA", codirigido pelo jornalista Yuval Abraham e pela cineasta Rachel Szor.
Em outros grandes festivais, também é nas programações paralelas e alternativas que as vozes femininas se destacam. Na última edição do Festival de Cannes, a costarriquenha Valentina Maurel e a chilena Manuela Martelli brilharam na seção 'Um Certo Olhar'.
Em Veneza, Nathalia Acevedo, que estreia na direção com "Salón de belleza", acredita que há uma "coragem" que impulsiona novas diretoras.
"Há uma força, uma vontade de dizer coisas, uma vontade de não ficar mais silenciadas", afirma a mexicana de 41 anos.
Para a argentina María Aparicio, que apresenta "A veces me entra tristeza, otras veces rebelión", é muito importante valorizar o caminho aberto por outras diretoras.
"As cineastas latino-americanas (...) estão trilhando um caminho. Isso sempre vai abrir outras possibilidades", diz.
Mas ela admite que eventos tão importantes como o de Veneza dependem de questões que vão muito além dos próprios filmes.
"Estes festivais são atravessados por tudo o que envolve o cinema e que muitas vezes tem mais peso do que o próprio cinema", adverte.
- "Hostilidade" -
A produção de Acevedo é inspirada no conhecido romance homônimo do escritor mexicano Mario Bellatin.
A trama apresenta um salão de beleza, outrora um centro de alegria e de certa felicidade, agora transformado em um local onde doentes terminais de um vírus misterioso passam seus últimos dias, cuidados por quem foi o dono do estabelecimento inicial.
Com um filme muito sensorial, a cineasta mostra o repúdio da sociedade àquilo que na obra original eram pessoas com aids e que agora pode ser entendido como a rejeição à covid durante a pandemia.
"O filme fala dessa hostilidade que existe na sociedade e que ataca sempre as pessoas que não estão de fato protegidas", explica Acevedo.
Aparicio, por sua vez, relata o encontro entre um historiador e uma atriz, ambos argentinos, em Madri. Entre passeios pela capital espanhola, eles conversam sobre o mundo do trabalho e as duras condições de alguns trabalhadores, seja há um século ou atualmente.
"O trabalho é uma dimensão em que se jogam muitas das complexidades do mundo. É também uma área da vida em que se cristalizam muitas desigualdades", analisa a argentina de 33 anos.
S.Dennehy--NG