Francisco Rodrigues dos Santos deixa CDS e critica aproximação à direita radical
Francisco Rodrigues dos Santos, antigo presidente do CDS-PP, anunciou que deixou de ser militante do partido, criticando o rumo seguido pela atual liderança, de Nuno Melo. Numa carta datada de 3 de novembro e dirigida ao atual presidente, considera que o debate político se deslocou progressivamente para a direita, sob a influência de discursos identitários, radicalizados e ultraconservadores.
Francisco Rodrigues dos Santos, antigo presidente do CDS-PP, anunciou que deixou de ser militante do partido, criticando o rumo seguido pela atual liderança, de Nuno Melo. Numa carta datada de 3 de novembro e dirigida ao atual presidente, considera que o debate político se deslocou progressivamente para a direita, sob a influência de discursos identitários, radicalizados e ultraconservadores. “Hoje, vejo o debate político progressivamente deslocado para a margem direita, sob a influência crescente de discursos identitários, de uma retórica radicalizada e de correntes ultraconservadoras e libertárias, frequentemente acompanhadas de uma inquietante insensibilidade social”, escreve.
O antigo líder, que presidiu ao CDS entre 2020 e 2022, considera que o partido acompanhou essa evolução, afastando-se do espaço político que tentou afirmar durante a sua liderança. “O centro-direita moderado, social e humanista que procurei defender, enquanto o liderei, foi perdendo espaço para uma orientação política que não me sinto capaz de subscrever”, afirma.
Na carta, Francisco Rodrigues dos Santos recorda que se filiou na Juventude Popular em 2007 e no CDS quatro anos depois, por acreditar na democracia-cristã. Sublinha que mantém essa convicção, mas que a sua leitura da sociedade evoluiu. Defende uma corrente política que concilie liberdade económica, iniciativa privada e crescimento com justiça social, igualdade de oportunidades e solidariedade.
“Não me basta uma economia que cresça sem melhorar a vida de quem trabalha e prossegue pobre, de quem não consegue pagar uma casa ou de quem nasce com muito menos oportunidades do que os outros”, escreve, acrescentando que “uma economia sem rosto humano pode produzir crescimento, mas a sociedade, nem por isso, passa verdadeiramente a viver melhor”. Quanto ao antigo presidente do CDS diz, por isso, identificar-se hoje mais com o centrismo, que descreve como uma posição com princípios e assente numa conceção humanista da sociedade.
“Não confundo o centro com a ausência de convicções”, esclarece, defendendo a necessidade de conciliar valores como a liberdade e a justiça social, a iniciativa individual e a solidariedade. Rodrigues dos Santos considera que Portugal precisa de recuperar o equilíbrio e a capacidade de entendimento político, defendendo que as soluções para os problemas do país não devem ficar limitadas às fronteiras entre esquerda e direita.
Na sua leitura, o CDS seguiu um caminho que deixou de ser compatível com as suas convicções. Apesar das críticas, afirma respeitar a opção dos militantes que continuam a reconhecer-se na atual orientação do partido. “Podemos discordar sem pôr em causa a autenticidade e a boa-fé de ninguém, e sem permitir que as divergências políticas se sobreponham à consideração individual e institucional que nos merecemos”, escreve.
A carta termina com uma declaração que resume a decisão: “Deixo de ser militante do CDS. Continuo a ser democrata-cristão”.
O.Ratchford--NG